terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Em 2012, se o mundo não acabar


Não acho que Natal seja só uma época de consumismo exacerbado ou de aniversário do cristianismo. Gosto da regra social de se ter uma época específica indicada para lembrar às pessoas de que você gosta delas. Se o cristianismo acabasse, iria sugerir que mantivessem a data mesmo assim, só pra ficar organizado.

Nesse fim de ano não desejei Feliz Natal para quase ninguém, evitei o quanto pude. Primeiro porque é mais prático, segundo porque acho que está implícito que quero que todo mundo fique bem, terceiro porque acho que minha cota de desejos já expirou esse ano. Estou formado, ainda tenho uma namorada (e não esposa e filhos), tenho saúde e ganhei um crachá e um contra-chegue no fim do mês. Ao que parece, virei adulto.

E em 2012, se o mundo não acabar, vou fazer 25 anos. A idade indicada para finalmente desistir de ser rockstar, de ser cineasta, de ser escritor, de ser astronauta, de ser Power Ranger e de escrever em blogs, para cair na realidade. Resta-me pouco tempo para crescer e engavetar até mesmo esse meu ar realista-pessimista-reclamista. Restam-me algumas pessoas que ainda gostam da minha baboseira de misturar realidade e ficção. E eu não disse nesse Natal o quanto gosto delas.

Primeiro por praticidade, segundo porque está implícito e terceiro porque eu não ia me conter de fazer um pedido de resgate dessa realidade, pedir que meus amigos me digam que nós ainda somos uma série de TV. Mas as pessoas estão viajando, trabalhando, casando, porque as coisas são assim. É bom, mas é ruim. E não vou pedir algo que eu também não saberia como dar.

Mas por enquanto o sonho ainda não acabou. Em 2012, se o mundo não acabar, eu vou escrever uma peça com o Minhoca, cantar alto uma música no karaokê com o Rafael, descobrir onde é o Central Perk que eu encontro a Jamille, chamar a Carlinha na janela pra gente tomar um vinho, visitar a Amanda, cumprir minhas promessas pra Edla e pra Jéssica, e sentir toda a falta considerável do meu amigo Filipe. Vamos tentar de uma ver por todas “aprontar as mais altas confusões nessa cidade do barulho”. Porque em 2012, eu preciso dar um jeito do meu mundo não acabar.


OBS: Era pra ter mais gente nas citações do último parágrafo. Mas ia ficar grande de mais. Mas vocês estão aí, não esqueçam.

domingo, 6 de novembro de 2011

5 frases de efeito para dizer quando não consegue abrir uma garrafa de coca-cola e resolve partir para ignorância






Você tinha alguma ideia melhor?


Fiquei com preguiça de ler as instruções


Chupa, agora!


Não deixe que tecnologia nenhuma te impeça de beber o que quiser.


Há três maneiras de se fazer as coisas. O jeito certo, o jeito errado e o meu jeito. Faça do meu jeito e vamos nos dar bem.




quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Blogstar frustrado

As pessoas ainda escrevem em blogs? Não falo dos blogs de humor, notícias e resenhas, falo do blog tipo diário, onde losers destilavam suas agruras e ainda ganhavam fãs com isso. Hoje o “blogueiro” entrou em desuso, foi pro limbo junto com o Orkut. E eu volto aqui como quem saiu pra comprar cerveja no meio da festa e quando voltou a festa tinha acabado. Vou fingir então que blogar é uma arte retrô, dada a velocidade com que as coisas evoluem atualmente.


Os escritores de blog mais ambiciosos pegaram carona na moda e acabaram arrumando um emprego de verdade, ou pelo menos alguma remuneração. Logo, falta-me ambição. E talento, claro. Inspiração é uma coisa complicada, e transpiração também. Ambos vêm nas horas inexatas. Quando tenho o que dizer, dá preguiça, quando to com ânimo, as ideias fogem.


Talvez se o ânimo e a inspiração pudessem ser conservados em bateria, eu tivesse uma chance. Agora, às três da manhã com essa insônia, tenho vontade de ser herói de mim, de me salvar da mediocridade com tanta ideia que se mistura na minha cabeça. Aí durmo e acordo ao meio dia preocupado apenas se tomo café ou se almoço logo. E me deixo levar no círculo vicioso da mediocridade diária. Mais um dia de redes (anti) sociais, canais de TV, alguma pornografia e várias idas à geladeira, apenas por tédio.


E em meio a isso sempre invento uma obsessão de última hora, um vício da última semana. Atualmente encontro-me fudidamente decidido a finalizar o Super Mario World. Um jeito mais fácil de me fazer herói. Quando eu era criança, acreditava nos heróis de vídeo-game ou nas aventuras da sessão da tarde. Esse ressentimento que tenho da vida por ela nunca ter me dado uma aventura de sessão da tarde é o mesmo que minha mãe tem por eu não ter sido um doutor. Finge-se que não existe, mas está guardado lá no fundo.


É falta de ambição estar escrevendo em um blog ao invés de ser um médico ou um advogado? Não, falta de ambição é nessa altura do campeonato eu estar apenas tentando finalizar o Super Mario.




sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Eu me vendi

Duas coisas que eu não queria ser: soldado e vendedor. Sempre achei que se de alguma forma eu tivesse que lutar pelo meu país, essa seria uma boa hora para ter pé chato. Ou dentes tortos, como foi o meu caso ao não adentrar nas forças armadas. Apesar de que todos os dias sou submetido a testes de resistência, estratégia, rapidez e principalmente violência. A guerra está aí fora, todo mundo vê. De alguma forma acho que o país me colocou na linha de frente, pra morrer pela causa. Mas pelo menos não sou vendedor.

Não era. Por incoerência do destino, estou agora numa sala de aula aprendendo Marketing (a foto explica). Me vendi pro sistema. Defina Marketing. Marketing é vender, ponto. Mas não é só isso, é um conceito amplo. É um conceito amplo, mas no power point tinha uma definição de três linhas. É saber como vender. Como se vender.

A Bel tá na sala e diz que tá feliz por eu estar aqui. Eu digo que eu é que to feliz por ela estar aqui. Só vou sobreviver a isso se tiver comigo alguém que não precise que eu sorria. A Bel disse que a gente sorri pouco porque sabe que tem dentes tortos. Com dentes tortos não dá pra ser um bom vendedor, e nem um bom soldado.

Alguém fala algo legal e todo mundo ri. Mas não mostro meus dentes tortos. A velha discussão sobre como a tecnologia mudou nossos hábitos que na verdade continuam os mesmos. E redes sociais e minha sobrinha de 12 anos faz isso na internet e aquilo e blábláblá. Prefiro a minha punheta digital em casa.

Percebo como sou o clichê anti-social de sempre. Tudo parece tão blábláblá. Mas se eu quiser ser um House ou um Hank Moody e desdenhar de todo mundo, tenho que ser um gênio em alguma coisa pra compensar. O Wolverine só manda todo mundo tomar no cu, porque tem moral para não deixar ninguém tomar no cu dele. Como eu não sou nenhum gênio, tenho que ser um soldado ou um vendedor de mim mesmo.

O Marketing não acaba depois da venda, é preciso fidelizar o cliente. Aqui tem textos escassos com comentários mais escassos ainda. Bem se vê que não sei fidelizar clientes, não sei me vender. Aqui não preciso de estratégias nem de público alvo nem desenvolver meu produto para as necessidades do cliente. Não, eu não faria isso com vocês. E ainda posso usar à vontade os meus dentes tortos.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Suzuki, nunca teria dado certo entre nós


Sabe o que é que ia ficar foda? Eu numa moto Suzuki vermelha escura dessas que tem um guidom que é quase como os da harley davidson, do tipo seca-suvaco, muito massa. Mas eu não passei no exame pra tirar a carteira de habilitação.


O engraçado é que eu sei pilotar moto, estava indo bem nas aulas, pegaria uma moto agora e iria à bodega se fosse preciso, ou mais que isso. Estancaria duas ou três vezes, mas e daí, a vida continua, não ia atropelar ninguém. E na prova eu estanquei duas ou três vezes, não atropelei ninguém, mas também não passei. E no teste de carro, passei. O que é curioso porque, ao contrário do que foi avaliado pelo Detran, e por conseqüência pelo estado do Ceará, eu não sei dirigir. Num carro, aí sim eu mataria pessoas. Mas o mundo quer fazer tudo do jeito dele e as coisas ficam assim meio tronchas.


No fundo no fundo eu sabia que eu não ia passar, porque eu estava achando que ia passar, e quando eu acho que vai dar certo, não pode dar coisa boa. Sair do meu sistema pessimista dá nisso. É o mundo dizendo “sou eu que mando por aqui, idiota”. Coisas assim deixam você pra baixo e te fazem pensar sobre dúvidas universais como sorte, Deus, justiça, o fato de a sociedade submeter seus indivíduos a esse tipo de prova. E são questões abrangentes, dariam mil textos, livros, palestras chatas. Mas que se foda, eu não passei na prova. Decidi ficar mesmo só com a carteira de carro, e espero nunca mais voltar ao Dentran, salvo para algum tipo de ato terrorista anti-burocrata.


Não foi só porque eu não passei que decidi abandonar a carteira de moto. Mesmo que eu passasse, não ia comprar minha Suzuki vermelha escura. Isso vai ficar só para os meus sonhos onde salvo alguma garota de moto, mato vários zumbis, pulo de um penhasco e a moto pode virar um transformer também. Decidi deixar essas aventuras de lado porque parecia mais lógico. Moto cai né, é como dizem: “se não fosse pra cair, teria pelo menos três rodas”. E meu pai utilizou comigo um argumento muito certeiro, o que é raro, na maioria das vezes o argumento dele é “porque é assim que tem que ser”.


Ele contou que quando era jovem, tinha um amigo que queria muito uma moto. E a mãe dele juntou meses pra comprar a moto pro filho. No outro dia ele bateu, caiu e morreu. E meu pai disse que lembrava bem da cena da mãe no pé do caixão do filho chorando e repetindo o tempo todo que tinha comprado a morte do filho dela. Foda, comprado a morte do filho dela. Daí meu pai prefere não passar o mesmo, e ele quase nunca me pede nada, então vou fazer. Serve preu me enganar que não estou triste por não ter passado na prova. E de repente serve mesmo preu não morrer assim. Talvez isso seja o mundo fazendo as coisas do jeito dele, escolhendo que pelo menos de moto eu não morro. E é basicamente isso, prova não prova nada, é só mais um jeito do mundo te jogar pra onde ele quiser.




quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Deus me encontrou


Esse é um texto diferente dos outros, mas está dentro da idéia que eu queria pro blog: explicar basicamente as coisas. Só vai se interessar por esse texto quem me conhece e está acompanhando a história. Ele serve apenas para economizar as mais de 10 vezes que eu iria contar a mesma história. Então ta tudo aqui, e já conta pra todo mundo ao mesmo tempo.

É sabido que semanas atrás “arrumei” um estágio de Editor na TV OPOVO. As aspas são porque só podia fazer o estágio se eu continuasse estudando na Fanor, se eu permanecesse estudante. E teoricamente eu me formaria no fim do ano. Daí tive a brilhante idéia de deixar pra fazer a monografia semestre que vem, continuar na fanor, fazer o estágio, virar um adulto e ter dinheiro. Mas era foda deixar pra se formar depois e tal... só que:

Minha monografia é audiovisual e eu ia fazer um documentário. Boa parte das cenas que iria filmar para o documentário aconteceriam num Fórum sobre a zineteca de Fortaleza, que aconteceria em setembro agora. Foi adiado para março do ano que vem. Era um sinal. Eu deveria adiar essa bagaça e fazer o estágio e zaz e zaz e pedi conselho a um monte de gente que respondeu que não sabia o que era melhor fazer, e foi que decidi largar a mono.

Entrei no processo pra fazer o estágio. Quando fui na TV, já me apresentaram todo mundo, eu tinha sido bem indicado, tava praticamente dentro. Faltava a parte burocrática só. E começou a putaria. Fui no RH pra fazer o teste pra saber se sou doido. Não sou. Respondi questionário, falei com psicóloga, mandei umas matérias que eu tinha editado pra saberem qual meu nível de edição. E enquanto resolvo tudo, a vida desanda. Meu documentário é engavetado, falto o estágio da Fanor, perco ensaios do teatro, perdi de filmar o Zine-se duas vezes porque fiquei editando na Fanor coisas que não deram tempo pra editar antes, não entreguei os dois primeiros capítulos da monografia que era pra entregar a te setembro.

Daí ainda tive que arrumar um monte de papelada pro departamento pessoal. Lá vai correria preu tirar minha carteira de trabalho. É, eu não tinha carteira de trabalho bla´blá blá e daí, eu nunca tinha precisado e não tive tempo de tirar antes. Também tive que conseguir uma declaração dizendo que eu cursava a faculdade pela manhã, sendo que eu curso a noite, sendo que na verdade não curso em horário nenhum porque não tenho aulas, estou me formando. E ainda queriam uma declaração dizendo que eu não estava mais fazendo a monografia, só que (burocracia) eu não posso mais trancar porque já passou do período, no caso eu teria que reprovar. Mas não existe declaração que afirme “Gladson Caldas está pretendendo reprovar essa cadeira no fim do semestre e não vai se formar”. Vai que eu teimo de me formar só pra fazer o mal né.

Sei que isso tudo eu resolvi e ainda chamava a burocracia pros pau, “vem que tu num me derruba não”. Ela me derrubou. Estou eu com o contrato de estágio em mãos, faltando só assinar e levar pra departamento pessoal, já com urgência de começar a trabalhar amanhã a tarde como sem falta. E a moça do Fanor Carreiras me diz gentilmente que eu não posso fazer dois estágios. “Mas como eu não posso? Taí, eu já to dentro”. Segundo a nova lei do estagiário, são permitidas apenas seis horas diárias de estágio a um aluno, porque ele precisa estudar né, e se a Fanor assinar esse contrato e permitir que eu trabalhe mais seis (visto que já estagio seis horas na Fanor) ela estará infringindo a lei. É isso.

Mas Gladson, não dava pra falar com alguém sei lá, teu estágio na Fanor já acaba em dezembro? Fui lá em cima, falei com coordenador, departamento pessoal, carái de asa, não teve jeito. Só se eu sair da Fanor. E nOPOVO eles me queriam trabalhando amanhã. Até eu ir no CIEE buscar meu contrato de estágio, pra acabar o contrato, levar no setor pessoal, preencher as burocracias de quem se desliga da instituição, ia demorar mais que daqui pra amanhã. Sem falar que largar a Fanor assim de repente é foda, faltando dois meses. Não iam arrumar alguém pro meu lugar, eu ia ter que ficar indo até dezembro, sem receber. Não ia ter acesso fácil ao equipamento de lá pra tentar continuar gravando meu documentário. Ia perder a bolsa. Enfim, é complicado. E depois de expor essa complicação pro cara lá da TV, ele falou “é, num ta dando mesmo não, fica pra próxima, Gladson”. È, fica pra próxima. PUTA QUE PARIIU.

Resultado: estágio fica pra próxima, monografia fica pra próxima, dinheiro fica pra próxima, trabalhar de verdade fica pra próxima, me sentir um adulto fica pra próxima. Mas veja pelo lado bom, agora eu tenho uma carteira de trabalho. ¬¬

E é realmente aquela coisa das pessoas dizerem que eu sou negativo, que eu sou pessimista, que eu preciso acreditar mais que vai dar certo. Mas é que tem sistemas que funcionam com as pessoas, comigo é outro sistema. Eu acreditei que ia dar certo, eu tinha certeza que tava certo, que tinha tomado a melhor decisão, que era senhor do meu destino e vai tomar no cú. Mas eu preciso duvidar, eu preciso achar que vai dar errado. Ta, releve esse último parágrafo, ele foi só uma breve divagação amargurada do mundo, da vida, ó vida ó azar. Pois é, é basicamente isso, escrevendo aqui poupo de contar essa história várias vezes e me aborrecer de novo. Fica pra próxima.

OBS: Eu to nos outdoors da Fanor. Quem já viu?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O jardimzinho


Eu sou meio incrédulo em relação a remédio. Comprimido, essas coisas. Eu acho que tem que beber muita água, dormir bem e liberar o catarro. Daí sempre que eu fico doente, arrumo tempo pra ficar na frente da tv, deitado no sofá da sala. E sempre que vem aquela tossida volumosa, que o catarro diz “estou pronto”, eu preparo pra despejar.


Mas teve uma coisa curiosa. Há uns seis meses meu pai comprou um carro pra minha irmã. Que é meu também, mas qualquer contrato de posse que envolva irmãos, fica com a posse o irmão que é mais chato, o que grita mais. Tiveram que quebrar um jardimzinho que tinha perto da garagem da minha casa pra poder construir uma outra garagem pra minha irmã. Aquele jardimzinho na verdade não servia pra nada, não sei como nascia alguma coisa ali, ninguém aguava ou cuidava das plantas, eram regadas a mijo de cachorro. Mas o jardim permanecia lá, firme e enraizado na areia fofa, até destruírem.


Nunca tinha sentido falta daquele jardim. Até hoje. Porque quando dava aquela tossida volumosa de quando você ta gripado e eu tinha que procurar um lugar pra dar liberdade ao catarro, era o jardimzinho que me aconchegava. Ele estava lá a postos. Agora já não estava mais. Tive que ir no banheiro, tão longe, que absurdo.


E penso nesse jardim como uma metáfora daquelas pessoas que são praticamente irrelevantes na sua vida, mas que no dia em que elas não estiverem lá, você vai pensar “ow rapaz, cadê fulano, fulano era tão bom”. Eu não consigo pensar em nenhuma pessoa que seja assim irrelevante na minha vida, porque se eu conseguisse pensar ela não seria tão irrelevante. Mas eu sei que tem alguém que quando não tiver mais, eu vou sentir falta. Não que eu me arrependa de nunca ter aguado o jardimzinho, não se trata disso. Trata-se de entender os encaixes da vida. Eu também posso ser o jardimzinho escarrado de alguém. E se entender peça dentro desse sistema e saber se adaptar quando uma peça falta, ou quando você é uma peça que já está na hora de faltar, esse é que é o lance. Mas a gente nunca entende o lance. E eu to doente, tenho mais é que repousar e sair desse computador. Dedico esse texto a meu finado jardimzinho.


domingo, 27 de junho de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ando cansado

Trago bolsa, sapato e junto

carrego o fardo

das maiores perguntas do mundo

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Sentado


Por dia, eu passo cerca de 10h e 48min sentado. Entre ônibus, trabalho e sala de aula, passando pela lanchonete e mais tarde pelo bar. Quase onze horas sentado. Isso provavelmente vai acarretar um problema nas costas, nos rins, uma hérnia de disco, no mínimo uma hemorróidas. É preço que se paga pela apatia diária. É que levantar é por de mais impreciso.

Já fui muito de andar, no tempo em que eu queria que a tua cidade fosse minha. Mas nunca soube muito pra qual direção ia, que ônibus pegar. Só descobri a técnica de sentar dentro dos ônibus. Na parte da frente, fique perto de alguém muito atento ao lado de fora. A pessoa logo levanta pra descer e então você senta. Eu nunca fico atento ao lado de fora. A não ser que tenha que ceder a cadeira a alguém, então me atento olhando pra fora e me faço de leso. Acho que minhas costas não doíam quando eu andava em pé. Mas agora eu só fico sentado.

E sento e trabalho e sento no horário depois que a aula começa. Não tenho pressa, coisa de quem vive sentado. E sento no bar e olho pros lados. Seria bom ter alguém pra me fazer uma massagem. Já fui muito de levantar e cruzar a rua na direção da pessoa para dizer uma frase nua e crua, de repente podia até ser “você quer me fazer uma massagem?”. Podia funcionar. Mas prefiro não levantar. E fico sentado pensando em qual momento desaprendi o próximo passo, por que eu não sou mais capaz de atos, e se um dia eu realmente fui.

É que tem dias que a vida precisa de manutenção. Mas como se faz a manutenção de um carro eternamente em movimento? Vai se fazendo ao mesmo tempo. Mesmo não sendo fácil. Mas quando a gente está frágil, só senta e espera. Não conserta as coisas. Já fui muito de não sossegar enquanto não resolvesse meus problemas do mundo. Hoje meu coração é vagabundo e se dá o luxo de ser resignado. Agora eu só fico sentado.