segunda-feira, 31 de agosto de 2009
I wanna be Woody Allen
I wanna be Woody Allen. Faz é tempo. Os filmes dele não têm nada de espetacular. São histórias parecidas, que têm como ponto comum as inquietações humanas: paixões proibidas, traições, insatisfações artísticas, questionamentos filosóficos, pseudointelectualismo etc. Tudo com uma comédia bem sutil (tirando uns pastelões que ele fazia antes). E Woody Allen praticamente faz ele mesmo em todas elas. Inclusive, quando ele não atua em algum dos seus filmes, fica uma atmosfera estranha, como se o filme não fosse dele. Pelo menos eu acho.
Ele já desmentiu, em entrevistas, que os seus filmes são autobiográficos. Mas são autobiográficos sim. São biografias dos vários eus que ele podia ter sido, ou foi, ou é: um comediante nervoso, um inventor nas horas vagas, um mágico, um cineasta fracassado, um diretor de TV fracassado, um espermatozóide fracassado... Aliás, a figura do fracasso, dos losers, é bem presente nos seus filmes, seguida da figura de um pseudointelectual bem-sucedido ou de um melhor amigo que tem dinheiro e mulheres.
Outra repetição é o espaço: quase todas as histórias se passam
Meu plano é não sair de Fortaleza, vou apostar que essa cidade vai ficar cada vez mais cosmopolita, como New York, e vou escrever várias histórias sobre os pseudointelectuais daqui, tendo a mim como protagonista. Sou feio, uso óculos, sou neurótico, vou ficar careca, falta só ser judeu (se bem que ateu também se encaixa). Tenho chance. Pronto, já tenho até meu primeiro story-line: Um cara descobre que é a reencarnação do Woody Allen, conhecido diretor de cinema, mas para sua surpresa, Allen ainda está vivo. Que tal?!
OBS:
- Minha imitação do Woody Allen tem bigode. Péssimo sinal.
- O Chaves (Roberto Gómez Bolaños) é a versão mexicana do Woody Allen.
A noite dos Idiotas II
- Camila, isso é hora?! Por isso que a gente não deixa você ir pra essas festas. Você chega no outro dia.
- Mãe, a senhora sabe o que é memória emocional?
- O que?!
- Ou poderia se chamar também registro sentimental de acontecimentos.
- Mude de assunto não. Você vai ficar de casti...
- É quando você pensa nas suas últimas lembranças e percebe que poucas horas preenchem mais espaço na sua cabeça do que vários dias, meses. A senhora levaria alguns minutos pra me contar o que comeu, lavou, dormiu ou viu na TV nesses últimos dias. Mas eu ficaria até amanhã tentando expressar tudo que eu vivi e senti na noite passada. Rock in roll, mãe.
- Mas minha filha, a gente fica preocupado. Só o que se vê é notícia de jovem que se perde nesse mundo aí, com bebida, droga.
- Deixa pra lá, mãe. Da próxima vez, eu levo a senhora.
A noite dos Idiotas I
(primeiro dos textos que estavam na gaveta desde o mês passado e que eu só to publicando agora)
Seguinte, o Rafael assistiu “Yes, man” e entrou numa de aproveitar mais a vida. E o código de ética rege que se seu amigo liga dizendo que precisa beber, é alerta vermelho, é SOS, você tem que ir. Eu só não sabia que era beber e pular e dançar (se sacudir, na verdade). E devia ter desconfiado de uma banda que eu não sabia nem pronunciar o nome.
Local com muita luz e pouca iluminação. Ainda bem que a gente achou um lugar pra se sentar. E que merda que era perto de uma mesa onde estavam duas gerações herdeiras dos três patetas. Idiotas. Sabe aquela galera que responde “pode crer” pra tudo? Pode crer! Bebem pra gritar mais alto e gritam pra pedir mais bebida. Até aí tudo bem, só que começa o show e qual é a primeira coisa que acontece? Um deles bota o braço no meu ombro e vira meu melhor amigo, fãs da banda desde criança. Olho em volta: a banda truando, o Rafael pulando muito doido e uma menina atrás de mim que tenho certeza que ela tava gozando. O jeito era me adaptar.
E abraçado aos idiotas, fiz a primeira coisa da lista de coisas rock in roll, que é balançar freneticamente a cabeça em ataques epiléticos no ritmo da bateria. Depois eu fiz a segunda coisa da lista de coisas rock in roll: cantar todas as músicas sem saber uma letra. E a terceira coisa foi me unir eletricamente com a massa. Eu não mais pulava, eu era levitado pela força do rock, e também pela manada de elefantes dançando perto de mim. Eu era um deles. Éramos irmãos, éramos pólos energizados pela mesma carga, éramos idiotas felizes.
Eu achava que já estava envolvido o suficiente. E veio um daqueles solos hard-metal, punk-metal ou qualquer-coisa-metal. E lá vai o Rafael entrar na roda-punk. Caralho! Putaquepariu Putaquepariu Putaquepariu! Ah, foda-se. Entrei também. Aquilo é um exercício de dança com o caos, é um balé matrixiano, e eu tava dentro. Espatifaram o celular de um cara no chão, mó putaria. Mas nada de pancadaria, pelo que eu sei das rodas-punk, se você cai no chão, alguém te levanta educadamente rapidamente e diz: se ligue, mermão, se ligue.
Depois do Rafael cantar com o cara da banda e tentar uns três mosh (é assim que escreve?), e depois deu ter feito air-guitar, air-bateria, air-vocal..., acabou. O exorcismo dos meus demônios e anjos estava completo. Eu era um idiota. Agora eu sou um idiota, e recomendo. Pelo menos duas vezes por mês. Pra lavar a alma.
sábado, 25 de julho de 2009
Reginas

É e não é porque as duas são do interior e vieram se perder no meio da Fortaleza
Ou se encontrar, feito destreza do destino
É e não é porque a Laís tem riso frouxo
Fome de festa
E gosto por gringo
É e não é porque a Maura faz macarrão
Arranca cabelo
E também segue o riso
Não é só por isso
Elas são como são e por isso se dão
Mas tem também aquela força sem explicação
Aquilo que faz a gente bater o olho
E se sentir bem
Achar com quem
Elas se entretratam, uma de abestada
A outra, diz rapariga
Elas se respeitam muito pouco
Por isso que é tão de verdade
OBS:
- A Laís disse que essa história dela gostar de gringo é exagero. A Maura diz: É não.
terça-feira, 21 de julho de 2009
In Treatment
(...)
- É... o senhor talvez ache um pouco estranho a minha pergunta. E só vou perguntar porque o senhor deve ter estudado durante anos pra não rir desse tipo de coisa. E essa coisa que eu vou perguntar é um pouco, assim, digamos, embaraçosa. Mas acredito que...
- Mark, por que você não se concentra na sua dúvida, ao invés de dar explicações? Lembre-se, você não está sendo julgado aqui.
- Ok,ok. É que é um pouco...
- Embaraçoso, eu sei. Prossiga.
- Ta. Ta legal, então eu vou falar logo de uma vez. É o seguinte. Existe algum tipo de esquizofrenia digestiva?
- What?
Desculpa, mas essa fala tinha que ser
Continuando:
- What?
- É, como se a pessoa pensasse que está realizando a digestão, mas não está. Tipo uma gravidez psicológica. Tem como uma pessoa dar uma... cagada psicológica?
- What?
- Eu sabia que não devia ter perguntado isso, eu...
- Não, não, sem problemas, eu só fiquei um pouco confuso. Só demorei um pouco pra me convencer que era isso mesmo que você estava perguntando.
- Não pode ser tão estranho assim. Já deve ter tido casos parecidos, não?
- Bem, dessa forma...
- É que é muito estranho quando acontece, chega ser um pouco assustador. Eu estou lá, de repente dá vontade e eu vou ao banheiro, como uma pessoa normal. Não me importo com o papel de má qualidade, nem os pingos de xixi na borda da privada. Eu até assovio às vezes. Sai fácil, tranqüilo, ótimo. Mas aí tem aquela olhadinha. Que as pessoas negam desconcertadas, mas eu sei que todo mundo dá, todo mundo olha. Então, eu olho bem rápido pra ver o resultado, e o que eu vejo?
- O que?
Agora o “o que?” se encaixa.
- Nada!
- Nada?
- Nada.
- ... (Pausa para um olhar de sobrancelha levantada)
- ...
- Bem, eu poderia caracterizar isso como um caso de fobia antiperfeccionista, como se você tivesse medo de não ter características podres assim como todo mundo. Mas você já pensou na possibilidade do... é, da...
- Da bosta?
- Isso. Dela ter descido um pouco para dentro do cano, mais para trás, por conta, talvez, da pressão que você colocou? Talvez ela tenha escorregado algumas vezes.
- What?
- Ah, nosso tempo acabou. Conversamos mais semana que vem.
- Mas, mas...
OBS:
- Não, não sei como tive essa idéia tosca. Mas essas merdas saem da gente de vez em quando.
domingo, 19 de julho de 2009
É tudo que você precisa saber
Acho também que representa bem o que ando descobrindo ultimamente. Assim, geralmente quando quero fazer alguma coisa – um filme, uma peça, escrever um livro, ou mesmo um texto só, começar um projeto pra mais uma banda etc. – eu faço uma lista enorme de coisas que eu tenho que ler pra usar de base teórica, mais um monte de coisas pra ver/ler/assistir que pode me servir de influência, depois faço um monte de anotações e, por fim, acabo não fazendo nada. Me perco. Essas coisas levam tempo, concentração, e acabo não tendo nenhum dos dois.
É que pra ficar bom, do jeito que eu queria, tenho que estudar um monte de coisa. Então a minha professora da faculdade diz assim: vá fazendo, depois você vê o que deu errado. E eu digo: mas não é assim, calma, tem que pensar. Daí perco a credibilidade. Enfim, essas coisas são um saco.
Mas fico pensando se simplesmente dissessem pra mim: essa é a câmera, aperte o botão vermelho e ela grava. E eu fosse seguindo. Esse é o word, clique duas vezes e comece a digitar o que você está pensando. E eu simplesmente fizesse. Talvez fosse menos frustrado. Ainda acho que não é assim tão simples, mas estou tentando dar uma chance ao “simplesmente fazer”. É aquela história, um ato vale mais que dez planos. No bom e no mau sentido.
Deixei os vários textos sobre iluminação, roteiro, produção, câmera, teorias do cinema, história do cinema, linguagem de rádio e tv etc. de lado pra ver se faço alguma coisa. O problema é quando eu esbarrar no primeiro “não sei como faz isso” do meu projeto. Até lá, eu vejo o que eu faço.
Obs:
- Ficou parecendo uma sessão de análise. Acho que é influência do In Treatment que ando assistindo de mais.
- Vou colocar o link da hq que eu leio, pra quem se interessar em perder o preconceito.
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terça-feira, 14 de julho de 2009
Som e Fúria
A vida é uma merda mesmo. Na verdade, eu deveria começar com “Eu sou um idiota mesmo”. Basta uma série clichelóide começar a passar na Globo preu começar a me imaginar um grande ator com uma vida dinâmica, idéias fervorosas catapultadas por muito vinho e um ligeiro charme intelectual vagabundo. Mas eu não queria escrever release nem texto de ocasião (tipo comentando os últimos acontecimentos da mídia), meu monólogo é outro. É mais sobre a bobalhice humana, mais sobre a minha mesmo.
Nessa semana pensei mesmo em voltar pro teatro. Já fiz papéis grandiosos como um narrador meio comédia dell’arte numa adaptação da Cinderela, um cara meio estranho que dizia “E agora José?”, e em uma apresentação pseudovarguardista eu fiz a Água (sem comentários). E semana que vem vou à peça na qual eu estaria estreando se não tivesse largado o teatro pela falta de tempo. É uma dessas peças subjetivas, cheias de possibilidades de interpretação. Talvez eu nem gostasse, mas deu uma vontade de me sentir artista de novo.
O problema é que na realidade eu não quero “fazer teatro”. Eu quero o dinamismo, as idéias e o charme. E ser apaixonado por uma atriz explosiva que me ache um louquigênio, e ser cativantemente inspirador a ponto de encontrar talento até num cocô de camelo, e ser o único capaz de fazer uma peça valer a pena e fazer todo mundo criar expectativa para que no último minuto tudo dê certo e clapclapclap pra todos. Pra todos e pra mim principalmente.
E antes fosse só egocentrismo, é idiotismo também e isso que me dana. Porque eu sei que vida é vida e historinha é historinha, mas eu me recuso, na minha cabeça, a não ser um personagem. Uma antiga professora do teatro me falou: não importa o que, apenas seja. Mas eu ainda não consegui sair do “ser ou não ser, eis a questão”. É aquela velha história: a vida é uma sede instante; um comedy up stand que se emperiquiteia, nos seus quinze minutos de cinema, e então vira iogurte vencido. É novela das oito, mentira que o povo indica, contada por mim, cheia de forte blábláblá.
Obs: - Quem encontrar todas as palavras toscas que eu quis inventar nesse texto ganha um cappuccino.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Voltando pra casa
É demasiadamente bom se mudar aos poucos pra casa da namorada. Lençol, toalha, escova de dente, chinelo, um por um aos pouquinhos. E a madrugada conversando, o café da manhã, fazer mercantil, esse último é meu preferido. Tudo isso é foda de bom. Mas a menina Dorothy já dizia: não há lugar como o nosso lar.
E não vou ser redundante e falar que sinto falta do aconchego dos pais, da briga com a irmã e blábláblá. Não que eu não sinta falta, claro, mas isso reflete um pensamento romântico de mais. Hoje inclusive, eu voltei pra casa e minha mãe estava dormindo, meu pai vendo jogo, minha irmã se irritou porque teve que abrir o portão pra mim e o cachorro, esse nunca me deu grande atenção mesmo. E ninguém sequer notou que estranhamente eu voltei sem mochila. Mas isso não sugere má convivência em família, é só que a vida é assim mesmo.
Não houve confetes com a minha chegada. Mas a casa, eu notei, sentiu minha falta. A TV pedia pra ser ligada, a geladeira com comida sobrando. Dois nescauprontinhos esperando por alguém que lhes desse sentido. Um saco de pão quase cheio. E mofando. Isso não acontece nunca aqui. O violão estava criando poeira, a mesa pedindo atenção, o quarto, aff maria, estava entrando
Tem um microondas agora, já faz mais de um mês. Eu nunca usei. É como um morador novo que já ficou amigo de todo mundo e só eu que não conheço. As coisas, ao contrário do cachorro, pularam em mim e abanaram o rabo. E eu entrei mexendo nas coisas, arrumando, abrindo, ligando, usando, matando a saudade da casa. Hoje eu senti que não eu, mas ela que voltava.
Obs:
- A última frase adaptei de uma música do Telerama, minha saudosa bandinha cearense preferida.
- Maura, não se engane, se eu não gostasse daí, não iria direto.
- Eu queria por o título Go back to home. Preferi ser nacionalista, mesmo que em inglês ficasse mais bonito.
domingo, 14 de junho de 2009
Placebo

(Decidi criar agora uma leitura interativa – Ah, essa pós-modernidade! Você pode escolher entre ler o próximo parágrafo ou ler o terceiro parágrafo antes do segundo. Mas o último parágrafo é pra ser lido por último mesmo viu? Eu não sei como criar link pra você clicar e ir para o segundo ou o terceiro parágrafo, então se você quiser ler o terceiro logo, pule o segundo sem olhar, é fácil. Ou leia logo o segundo mesmo, porque isso é uma besteira.)
Eu não tenho fé. Acho que acreditar em Deus é como levar um tiro: ou pegou em você ou não, a gente sabe na hora. Não é uma escolha, é automático. E eu consigo viver perfeitamente com a idéia vaga de que o universo não tem começo, meio e fim, ao invés de explicar as coisas com um livro debaixo do braço. Que minha avó não leia isso. Aliás, ela nem sabe ler. Mas ela acredita em Deus, nos santos e em São Francisco das Chagas. E eu não acredito em Deus, mas acredito na minha avó. Se ela disse que os desejos vão se realizar, é porque vão. Porque acreditar é que nem não levar um tiro: você simplesmente sabe.
Acho que tudo acontece porque tem que ser assim. Odeio essas frases vagas. Se eu “escolhi” nesse momento escrever esse texto foi porque antes eu “decidi” fazer um blog, e antes eu “quis” escrever, e antes eu aprendi a ler e por aí vai. A raiz desse motivo é infinitamente anterior e está ligada a vários atos durante a minha vida e durante a vida de todo o mundo, criando uma grande relação de causa e efeito. Lá vêm essas frases vagas de novo. Só sei que eu não escolhi/decidi/quis exatamente, eu apenas segui o que os acontecimentos anteriores me impulsionaram a fazer.
Se na fitinha de São Francisco, eu tivesse pedido para derrubar um vaso (eu sei, ninguém pediria isso, é só para ilustrar), iria fazer o vaso cair assim que pudesse, visto que acreditei no pedido. Mas eu fiz pedidos de que coisas felizes aconteçam na minha vida, e agora sempre que a fitinha coça no meu pulso, eu lembro que tenho que fazer alguma coisa para elas acontecerem. Porque o ser humano precisa acreditar em alguma coisa, em algum remédio, mesmo um placebo. Porque só assim a gente consegue continuar.
OBS:
- Resolvi escrever “avó” corretamente, como não fazia antes, em virtude da irritação que era o word ficar sublinhando a palavra de vermelho direto.
- Diga se muda alguma coisa ler o terceiro parágrafo antes do segundo.