
Particularmente, eu sou otimista em relação ao desbotamento do vermelho da paixão. Vou explicar: o oxigênio, certo, acaba com tudo, é a lei do mundo. Acaba inclusive com os relacionamentos. E o vermelho que um dia ardia com o teu amor, hoje desbota, fica quase amarelo. Mas é isso que eu digo o contrário, eu sou contestador dessa postura pessimista, e isso é quase vanguardista se tratando de mim. Eu acho que descobrir o amarelo do amor é amar sem o pudor de antes, e não sem o fervor.
Eu sentia teu corpo ferver e ainda sinto, mas é mais freqüente sentir o cheiro do teu pescoço enquanto o macarrão é que ferve no fogo. Essas singelas belezinhas do cotidiano. E numa cidade que é suja e só, eu não preciso mais ser, encontrei o meu lugar e amo me acostumar. Acostumar inclusive com a roupa espalhada, o sabonete empapado e o pente jogado no chão. É que ela é meio desorganizada.
E dizem que miojo é ruim. Miojo é ótimo, só que você tem que entender que não é sempre ótimo, até porque miojo não é pra comer todo dia. Entrar no desafio de amar todo dia é como desenvolver a técnica de gostar de comer miojo. Ver a beleza de um cabelo assanhado, de um beijo na inércia, de um chinelo espalhado pela casa, de um bonito que ficou feio, mas que o costume deixou bonito de novo. É o charme pacífico e satisfeito de um amor amarelo.
E o amarelo é a cor do nosso miojo. É a cor da margarina e do pão. Da boca de manhã, amassada e sem batom. Das calcinhas dos dias normais. Da camisinha e dos finais de semana em casa. É quase a cor da televisão que vemos enquanto não passa nada. Não é a cor da saudade de quando eu vou embora, e sim da tarde de outrora, já entrando na boca da noite e ela pegando no sono. É amarela a cor do tapete em que ela está deitada, no centro da sala, em plena nove da noite. A cidade ainda não dorme, ela é que é desorganizada.
OBS: Dedico a Maura Regina, claro, e ao Rafael e a Clarisse.
11 comentários:
simplesmente lindo.
amar elo... é isso!! gostei!!
pessoas novas? desconhecidas? ainda há esperança.
Não gostei, começo confuso, íntimo demais, o miojo não coube...
"encontrei o meu lugar e amo me acostumar." Essa é a melhor parte.
e quem nesse mundo é inédito???
desconhecida mesmo eu não sou...
sou feito árvore, nômade, em todo lugar...
e alguns sabem quem eu sou...
mas eu mesmo tô é buscando descobrir...
fiquei com vontade de comer miojo agora, de tomate, e do jeitinho que eu gosto: mais durinho, escorre a água e entope de queijo ralado.
a gente sabe que ama o outro quando sabe exatamente o jeito de preparar o miojo dele sem perguntar se tá bom disso ou daquilo..
ps: miojo de tomate é vermelho.
O amor é lindo - ainda que seja amarelo :)
(Mas eu prefiro colorido) ;)
Adorei teu texto!
Bisous.
É que ela é meio desorganizada.
Quando leio teus textos, fico com vontade de não ter te conhecido. Só pela vontade de querer te conhecer. Enquanto for só vontade.
Eu li esse teu post e, quando estava em Curitiba, ele me fez criar uma poesia :)
Eu estava num ap no Ahú (se pronuncia "aú", mas isso não vem ao caso... aiai)... Então: eu estava nesse ap, de frente para alguns ipês cujo amarelo quase cegava de tão bonito! (depois, boto uma foto no blog). Aí, lembrei do teu texto e corri pra buscar a caneta, antes que o poema fosse embora, rs. ;p
Ah, o poema tá no blog. Foi postado hoje. E teu espaço foi citado ;)
bj.
lindo. foi o primeiro que li, e que me dixou com vontade de ler os outros. e de ler esse de novo.
Postar um comentário