Eu sou meio incrédulo em relação a remédio. Comprimido, essas coisas. Eu acho que tem que beber muita água, dormir bem e liberar o catarro. Daí sempre que eu fico doente, arrumo tempo pra ficar na frente da tv, deitado no sofá da sala. E sempre que vem aquela tossida volumosa, que o catarro diz “estou pronto”, eu preparo pra despejar.
Mas teve uma coisa curiosa. Há uns seis meses meu pai comprou um carro pra minha irmã. Que é meu também, mas qualquer contrato de posse que envolva irmãos, fica com a posse o irmão que é mais chato, o que grita mais. Tiveram que quebrar um jardimzinho que tinha perto da garagem da minha casa pra poder construir uma outra garagem pra minha irmã. Aquele jardimzinho na verdade não servia pra nada, não sei como nascia alguma coisa ali, ninguém aguava ou cuidava das plantas, eram regadas a mijo de cachorro. Mas o jardim permanecia lá, firme e enraizado na areia fofa, até destruírem.
Nunca tinha sentido falta daquele jardim. Até hoje. Porque quando dava aquela tossida volumosa de quando você ta gripado e eu tinha que procurar um lugar pra dar liberdade ao catarro, era o jardimzinho que me aconchegava. Ele estava lá a postos. Agora já não estava mais. Tive que ir no banheiro, tão longe, que absurdo.
E penso nesse jardim como uma metáfora daquelas pessoas que são praticamente irrelevantes na sua vida, mas que no dia em que elas não estiverem lá, você vai pensar “ow rapaz, cadê fulano, fulano era tão bom”. Eu não consigo pensar em nenhuma pessoa que seja assim irrelevante na minha vida, porque se eu conseguisse pensar ela não seria tão irrelevante. Mas eu sei que tem alguém que quando não tiver mais, eu vou sentir falta. Não que eu me arrependa de nunca ter aguado o jardimzinho, não se trata disso. Trata-se de entender os encaixes da vida. Eu também posso ser o jardimzinho escarrado de alguém. E se entender peça dentro desse sistema e saber se adaptar quando uma peça falta, ou quando você é uma peça que já está na hora de faltar, esse é que é o lance. Mas a gente nunca entende o lance. E eu to doente, tenho mais é que repousar e sair desse computador. Dedico esse texto a meu finado jardimzinho.
2 comentários:
Ei mah, béisso mah! Eu num sou jardinzim não, né? Amigo ó! amigo...
Ah, a dialética da vida...
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